O que Hiroshima ensinou à ficção científica sobre o medo do colapso

Na literatura de ficção científica, o olhar de um observador alienígena tenta decifrar por que flertamos de forma tão natural com o nosso fim

Oito décadas atrás, a humanidade, pela primeira vez, percebeu que a possibilidade da autodestruição se concretizara. Em frações de segundos, cerca de 80 mil desavisados habitantes de Hiroshima foram vaporizados por uma onda de calor que beirou os 4.000° C (para efeito de comparação, a temperatura na superfície do Sol fica em torno de 5.500º C). Embora outros eventos bélicos tenham causado mais mortes e destruição em termos absolutos — como o Cerco a Leningrado, que matou mais de 1 milhão de civis em 900 dias, seja pelos bombardeios, pela fome ou frio; ou a lendária Batalha de Stalingrado, que em 5 meses de combate ceifou a vida de 2 milhões de pessoas —, Hiroshima estabeleceu um marco por sua aterradora eficiência.

À invenção da bomba atômica se seguiu a da bomba nuclear, infinitamente mais poderosa. Felizmente, mas não sem alguns perigosos solavancos, novos ataques com bombas, atômicas ou nucleares, não se concretizaram desde então, poupando-nos da tenebrosa perspectiva de um “inverno nuclear” que dizimaria nossa civilização. Antes, porém, de celebrarmos o altruísmo e a sensatez dos líderes mundiais de 1945 para cá, devemos levar em conta que o lado sombrio dessa realidade provavelmente reside no conceito da “destruição mútua assegurada”. Em outras palavras: nenhuma potência usou uma arma nuclear contra um rival porque saberia que a reação seria tão ou mais devastadora. Mesmo assim, a Guerra na Ucrânia e a perene tensão no Oriente Médio impedem que o receio do uso de armas nucleares se dissipe no horizonte.


Estamos próximos do fim do mundo

Para nosso infortúnio, o medo de nosso colapso civilizacional é alimentado por mais fontes. Uma delas são os eventos climáticos extremos — resultados de nossas próprias ações contra o meio ambiente — que, em termos de energia total liberada, são exponencialmente mais potentes que um artefato atômico. Um furacão de Categoria 5 equivale a explosão de 10 mil bombas; o abalo causado pelo tsunami do Japão em 2011 liberou a energia de 600 milhões de bombas de Hiroshima.

Outro elemento dessa soturna lista são as armas biológicas. Comparativamente mais baratas de produzir, quase impossíveis de se rastrear e de se controlar depois de liberadas, elas carregam um potencial de devastação incalculável. Vide a toxina botulínica, teoricamente capaz de matar 1 milhão de pessoas com apenas 1 grama de sua forma pura devidamente dispersa e inalada.

Se já não bastasse, neste século, novos itens foram adicionados ao rol de ameaças: as tecnológicas. Uma inteligência artificial geral que se torna incompreensível e foge do nosso controle; armas letais autônomas que iniciam um conflito de grande escala; manipulação genética; desinformação em massa destruindo a confiança nas instituições: as probabilidades são inúmeras.


O futuro em xeque

O curioso, no entanto, é que essa lista é composta de ameaças criadas, direta ou indiretamente, por nós mesmos. Diante disso, o que diria um observador isento, imagine um alienígena dotado de um pensamento puramente lógico? Como ele reagiria ao perceber com que facilidade nós, os homens sábios, racionalizamos nossos atos de destruição em massa e continuamos desenvolvendo artefatos que podem acabar com nossa civilização? Ou por que prosseguimos consumindo, num ritmo insustentável, os recursos naturais cruciais para nossa sobrevivência?

Em meu livro “V4T3R - Parte I: O Basilar e o Padre”, especulo um pouco sobre o comportamento desse observador isento e racional. Trata-se de um Basilar, membro de uma civilização muito mais evoluída, que se interessa pela Humanidade e suas incongruências. Sua curiosidade é tão profunda que o alienígena constrói um dispositivo que o permite se projetar na consciência de um humano para tentar entender intimamente como funciona nosso comportamento.

O primeiro hospedeiro do alienígena é um padre, em 2072. O mundo foi arruinado por mais de uma década de catástrofes climáticas, resultantes da nossa incapacidade de lidar com o assunto e nossa tendência a normalizar eventos traumatizantes. Já o sacerdote vive num ambiente desolado — uma pequena comunidade estabelecida nas ruínas de uma cidade — e trava um sério conflito interno com sua fé devido a uma tragédia pessoal. No entanto, mesmo diante de tantas adversidades, o eclesiástico consegue se manter fiel a suas decisões passadas e perseverar, desviando-se do caminho fácil do fatalismo.

Tudo isso impressiona o viajante interdimensional, que testemunha, de uma perspectiva única, o resultado de nosso impressionante colapso civilizacional. Antes de se projetar na consciência do padre, V4T3R já havia se surpreendido com as atitudes destrutivas dos humanos em relação ao planeta e ficara intrigado com o fato de nos considerarmos criaturas racionais. Considerando nossa tendência em racionalizar o irracional, creio que o alienígena não está errado.