Por que o culto às aparências pode alimentar a perda de sentido

A partir de “V4T3R”, discuto pressão social, solidão e o enfraquecimento das referências coletivas.

O filósofo e teólogo francês Jacques Ellul afirma, em seu livro Hope in time of abandonment: “O fim da esperança é discreto e silencioso. É como uma veia aberta em um banho quente, que drena todo o sangue e traz o sono sem dor e sem reação. Não dá origem a nada e quase não tem consciência de si mesmo”. Quantos estão, neste momento, dentro desta mórbida banheira, se esvaindo inadvertidamente até que seja tarde demais?

O que causa esse esvaziamento de sentido, essa inércia existencial diante de todas as possibilidades que a vida oferece, essa solidão coletiva que nos abarca? Uma resposta podem ser as pressões estruturais da sociedade moderna, que exigem que o indivíduo esteja o tempo todo promovendo feitos e conquistas para que possa se sentir aceito.

Essa exposição incessante a recortes de vidas perfeitas, que, na maioria das vezes, não existem para além das redes sociais, pode ser um catalisador para a perda da esperança. As aparências são o que importa; nosso âmago, não. Eu, como indivíduo, preciso transmitir constantemente a sensação de que meus dias são permeados por “momentos grandiosos”. Caso contrário, corro o risco de me sentir alguém “inferior” e flertar com o soturno banho de veias abertas.

Quando as referências deixam de acolher

O problema é que, nesse contexto pouco animador, as instituições que deveriam servir de amparo para os desesperançosos naufragam em suas próprias mazelas. Como argumentar que a solução está na política quando os escândalos se renovam diariamente, com uma incômoda repetição de personagens que sempre se safam no final?

Que ânimo pode ser insuflado num cidadão que vê o dinheiro de seus impostos ser desviado para proporcionar vidas nababescas a pessoas cujo único mérito são suas conexões com o poder? Semelhante raciocínio serve para a religião, que tem colecionado ao longo dos últimos anos episódios vexatórios envolvendo líderes espirituais de todos os credos. E se estende para as organizações sociais, muitas delas servindo apenas de fachada moral para todo o tipo de falcatruas.

Essa infeliz combinação de instituições falidas e uma sociedade personalista resulta na diluição das narrativas coletivas. Os objetivos tornam-se puramente individuais, pois o “eu” precisa brilhar mais do que o “nós”. Não importa se a busca pela “relevância social” envolve o sacrifício da dignidade e de valores éticos, fazendo com que indivíduos abram mão de sua saúde mental e de seus preceitos básicos para agradar pessoas que nem mesmo conhecem.

É preciso vencer a qualquer custo, não importando se os atos afetam negativamente outras pessoas. E, caso algo dê errado, não há hesitação em transferir a culpa ou negar veementemente as evidências, esperando que o passar do tempo e o surgimento de outro fato se sobreponham.

Uma fresta de luz em meio ao desamparo

Em meu livro V4T3R – Parte I – O basilar e o padre, Amaro, o sacerdote, decide enfrentar as consequências de suas decisões até o fim. Resiliente, ele não se permite transferir para outrem as consequências de seus atos, muito menos usar como desculpa as circunstâncias extremamente desfavoráveis que o cercam. O mundo ao redor está arruinado, mas ele insiste em manter sua integridade, mesmo quando provavelmente não seria cobrado por isso. Sua atitude pode parecer inútil, mas pode servir como uma “fresta de luz” capaz de inspirar, de fazer com que outros retomem a esperança perdida. E deixem a banheira mortal.